Processo de animação de Dragon Ball Z

A técnica de animação com folhas ou películas de celuloide é a mais antiga e popular no mundo da animação, até a criação dos processos digitais. Nessa técnica cada frame (quadro) é desenhado à mão no celuloide, pintado com pincel e depois fotografado para o rolo de filme cinematográfico. A maioria das animações atualmente, apesar de começarem no desenho a mão, estão migrando para os processos digitais de produção. O Studio Ghibli, famoso estúdio de animação japonesa, mantém todo seu processo de produção, ainda hoje, do modo tradicional, desenhando frame por frame.

O processo digital economiza material, dinheiro, tempo e facilita na edição, porém o processo de modo geral é bastante parecido. Quando Dragon Ball foi ao ar, em 1986, não havia o processo digital, portanto todas as animações eram feitas no modo tradicional. Atualmente a franquia utiliza o processo digital nos seus filmes e sua nova série, Dragon Ball Super.

É importante ressaltar que este post, apesar de tratar especificamente do processo de criação episódios de TV, também se aplica, grosseiramente à criação de filmes animados. A principal diferença é que para filmes, a qualidade é muito superior à produzida para televisão. Além disso, este processo foi utilizado pela Toei Animation, no processo de criação de Dragon Ball, em 1986. Cada estúdio tem suas peculiaridades, porém, o processo, de modo geral, é sempre o mesmo. É importante lembrar também, que muitas vezes, algumas das partes abaixo acontecem simultaneamente, a separação é boa para facilitar o entendimento.

Processo Tradicional de Animação

Como explicado anteriormente, este processo envolve o desenho e pintura à mão e fotografias das películas de celuloide. Este processo foi utilizado quase que sem alteração pela Toei Animation, até meados de 2002, na produção de anime para televisão japonesa.

Parte 1: Planejamento e Roteiro

Tudo começa com reuniões de planejamento e roteiro, com produtores, diretores e escritores. Nessas reuniões eles definem o enredo do episódio e quanto do material original, o mangá, será adaptado neste ou deixado para os próximos episódios. Destas reuniões eles tiram então o roteiro com falas e algumas direções básicas de cenas. A partir daí é definido cronogramas, equipe e materiais para a produção. Isso acontece toda semana.

Reunião de Produção Dragon Ball

No Japão, assim como nos Estados Unidos, as séries lançam semanalmente, um episódio por semana. Animes são considerados séries. A principal diferença é que as séries americanas lançam por temporadas, já alguns animes, principalmente os que adaptam mangás, seguem indefinidamente, sem pausas por temporada. Como foi o caso de Dragon Ball, Naruto, Bleach e One Piece. Porém, muitos animes mais recentes estão seguindo o formato de temporada, como Attack on Titans, Nanatsu no Taizai, One Punch-Man e Boku no Hero Academia.

Parte 2: Storyboard

Baseado no roteiro final é criado o storyboard do episódio inteiro, que é basicamente o roteiro desenhado de forma simples, como um rascunho. O storyboard divide os episódios em cenas e as cenas em cortes. É aí que o diretor determina quantos cortes cada cena irá precisar, posição e ângulo de câmera e duração de cada corte, para não passar a duração determinada para o episódio. As cenas e os cortes possuem números de identificação que são utilizados durante todo o processo de produção.

Storyboard Dragon Ball Z

Além disso o storyboard possui descrições de cenas, de movimento do personagem, efeitos de som e qualquer outro elemento importante. Normalmente quem desenha o storyboard é o próprio diretor. Alguns fazem rascunhos mais detalhados enquanto outros não. Todo o processo de produção é feito baseado no storyboard, mas não necessariamente as cenas serão idênticas à ele.

Parte 3: Key Frames

Com o storyboard finalizado o diretor atribui partes dele para determinados animadores, chamados de Key Animators. Esse animadores são responsáveis por desenhar o que chamamos no mundo da animação de key frames, ou quadros chave. São basicamente, as cenas estáticas mais importantes para o movimento do personagem. Por exemplo, na imagem abaixo. O quadrado e o círculo são os key frames, os frames intermediários são criados baseados neles, para dar a sensação de movimento.

Explicação de Key Frames

Diferente do storyboard, os key frames são desenhados com o maior número de detalhes possível. Ele é a versão final de como a cena ficará na tela.


Algumas cenas são pensadas com animadores específicos em mente, porque cada um tem as suas especialidades. Alguns desenham melhores cenas de combate enquanto outro, explosões por exemplo. Há uma reunião com todos eles para o diretor explicar os detalhes do episódio e o que ele espera de cada cena. Além disso os animadores usam essa reunião para tirar suas dúvidas.

Frame Dragon Ball Z

Quando os key frames são finalizados, eles são enviados para um supervisor revisar todo o material. Qualquer inconsistência ou desenhos mal acabados são enviados de volta para correção. Quando tudo está aprovado, eles tiram cópias desses materiais e enviam os originais para o departamento de arte, onde a equipe inicia o processo de pintura dos cenários de fundo.

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Parte 4: Key Animation

Essa é considerada como a parte mais importante do processo de animação. Os animadores agora, irão desenhar todos os key frames de cada cena. Desta vez eles estão ainda mais detalhados que o anterior, com indicação de cores, luz e sombra, movimentos e qualquer outro aspecto que influencie na cena. É este cara que é o responsável por dar personalidade à cena, porque ele não só desenha como define o tempo de ação de cada uma.

Animação Dragon Ball z

Este tempo de ação é passado para os auxiliares, que irão desenhar os frames que estão entre cada key frame. As vezes haverá diversos elementos em movimento na cena, como personagens de fundo, veículos, fumaça, pedras caindo, etc. O animador chave precisa identificar esses elementos e planejar a cena para determinar quantos frames haverão entre um key frame e outro para animar as cenas.

Animação Dragon Ball z

Parte 5: Frames Intermediários

Depois que as key frames estão finalizadas e aprovadas eles são enviados para o departamento que desenha os frames intermediários.  Isso é feito baseado em uma planilha de tempo criada pelo key animator, que indica quantos frames intermediários serão necessários entre cada key frame. Esse departamento não tem muita liberdade de criação, ele precisam obedecer exatamente as instruções dos key frames detalhadas pelo animador.

Produção Dragon Ball Z

Tradicionalmente, animadores japoneses trabalham como desenhistas de frames intermediários antes de serem promovidos à key animators.

No total, são desenhados em média, de 3000 a 5000 desenhos por episódio.

Parte 6: Efeitos e cores

Os frames são então enviados  para o departamento de finalização. Lá, cada um deles é pintado em uma película de celuloide. A película transparente é colocada em cima do desenho, que é então copiado. Para Dragon Ball e Dragon Ball Z esse processo foi feito à mão, já para o Dragon Ball GT foi usado a fotocópia (o famoso Xerox). Assim que as linhas secam esses artistas pintam cada uma dessas películas pela parte de trás, seguindo as guias de cores especificadas anteriormente.

Pintura Dragon Ball Z

Enquanto isso, películas estão sendo criadas com os efeitos especiais, como sombras, fumaça, fogo ou no caso de Dragon Ball, energias e ki. São utilizadas diversas técnicas como lápis, tinta, carvão, aquarela, sprays, etc.

Além disso, os cenários estão sendo pintados por outros artistas. Normalmente é um processo longo e trabalhoso porque o estilo é parecido com pintura tradicional em telas e possui muitos detalhes. Eles trabalham em cima de rascunhos criados pelo diretor de arte ou pelo storyboard.

Cenários Dragon Ball Z

 

Parte 7: Fotografia

Quando parte da animação está pronta, as películas são enviados para um fotógrafo, junto com todo o material de referência necessário. Cada cena é acompanhado por uma planilha de tempo que ajuda o fotógrafo no seu trabalho. O anime é gravado a 24FPS (frames por segundo). O que quer dizer que é  necessário 24 frames para criar um único segundo de animação. Portanto, são 24 fotografias também.

Edição Dragon Ball Z

O enquadramento da película é muito importante. Caso seja mal feito, as imagens podem perder a sequência de movimento, resultando em animações erradas. Outro detalhe muito importante é o contraste de cada foto. Caso um frame seja fotografado com contraste diferente dos outros ele aparecerá claramente ao telespectador, dando um efeito de erro. Outra atenção que deve ser tomada é com frames que possuem mais de uma célula. Por exemplo, quando há efeitos e movimento de fundo. As películas são nomeadas por letras e são colocadas sempre em ordem. A primeira é o cenário, depois vem a película A, depois a B, C, etc.

É colocado em cima das películas um recorte de vidro para evitar qualquer irregularidade e deixar tudo chapado. Só então a película é fotografada por uma câmera especial num role de 16mm que é etiquetada e enviada para a equipe de química para revelação. Quando o negativo é revelado é enviado para o editor.

Edição Dragon Ball Z

Como as cenas são enviadas para fotografia conforme são terminadas, elas chegam separadas e fora de ordem neste momento. Portanto é o trabalho dele colocar tudo na ordem, como manda o storyboard. Além de verificar qualquer erro no filme e juntar tudo em uma bobina, criando o que é chamado de Master.

Parte 8: Dublagem, sons e músicas.

A Toei utiliza um processo de dublagem que é feito após a animação está finalizada. Isso agiliza o trabalho dos animadores e permite que os dubladores (seiyuu) tenham mais liberdades, deixando o trabalho o mais natural possível. Nos Estados Unidos por exemplo é comum que a dublagem seja feita antes. A dublagem normalmente é feita em um estúdio grande com vários dubladores juntos ao mesmo tempo. Já nos Estados Unidos, são cabines separadas. Talvez essas diferenças expliquem porque a dublagem japonesa é considerada a melhor do mundo.

Dublagem Dragon Ball Z

Seiyuus dublando Dragon Ball Z

Antes de começar as gravações, os dubladores se reúnem em uma sala onde, com o roteiro em mãos repassam juntos com o episódio passando num projetor. Depois disso fazem ensaios. Todos os diálogos, inclusive narração, são gravados juntos. Normalmente não é possível que cada dublador possua seu microfone, por isso eles ensaiam também o revezamento. Quando o diretor está satisfeito com as performances, eles finalmente gravam o episódio. Esse processo leva geralmente cerca de 2 a 3 horas.

Depois disso é a vez de entrar os efeitos sonoros e músicas. Este material já foi gravado antes, seguindo o roteiro e storyboard. Eles são então editados juntos com as vozes e gravados em uma fita de 16mm.

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Parte 9: Finalização

Esses filmes masters são copiados e é feito um novo enquadramento, como se fosse um zoom, para evitar aparecer qualquer coisa indesejada. Essa cópia, diferente das masters continuam o áudio e o vídeo no mesmo filme. O material é então finalizado e enviado para as emissoras de televisão.

Pelicula Dragon Ball Z

Processo Digital de Animação

A Toei Animation começou a usar técnicas digitais em 1998, e em 2000 a maioria de seus títulos eram completamente digitais. Em 2002 eles pararam de vez com os processos tradicionais. Isso além de reduzir custos de produção os dava mais folga no cronograma. A redução de custos vem não apenas da redução do tempo de produção como na redução de materiais que se tornaram desnecessários com a digitalização. Como o celuloide por exemplo. Também reduz custos com transportes de materiais entre estúdios, conservação dos produtos e armazenamento.

Parte 1 a 4: Planejamento

Mesmo que muito dos processos de pós produção tenham virado digital a maioria dos processos de planejamento continuam praticamente iguais ao modelo tradicional. Baseado no roteiro final o diretor desenha o storyboard com rascunhos detalhando o episódio. O resto segue de forma igual. Quando os layouts são aprovados, eles são digitalizados e colocados na rede. As áreas que necessitam de animação digital 2D e 3D são identificadas e passadas aos responsáveis. A Toei utiliza o Maya para criação das cenas 3D e efeitos e texturas são também criados digitalmente.

Dragon Ball 3D

Dragon Balls feitas em 3D

Com isso os key animators começam a desenhar os key frames. A partir daqui todos os processos são desenhados digitalmente, com tablets (mesas digitalizadoras como Wacom). Porém os storyboard e os key frames ainda são desenhados em papel e lápis. Quando os key frames são finalizados eles são digitalizados e enviados a um software chamado RETAS! Pro. Esse software vetoriza todos os desenhos já separando os key frames e camadas do desenho. Como sabemos, os vetores possuem a capacidade de serem redimensionados infinitamente sem perder resolução e qualidade.

Após isso os key frames são checados em busca de problemas e quando necessita de correção, o responsável simplesmente cria uma nova camada no software e conserta o problema. Quando tudo está aprovado é criado uma tabela de tempo para as cenas, indicando tempo, quantidade de frames e algum outro detalhe. O software então gera uma linha do tempo baseada nisso, já inserindo a quantidade de frames delimitada entre cada key frame.

Parte 5: Frames Intermediários e Pintura

Baseado nessa linha do tempo os animadores começam a desenhar digitalmente todos os frames intermediários entre os key frames. Os animadores conseguem rodar uma animação simples para testar se os seus frames estão de acordo. Como o software tem ferramentas de transparência ele consegue ser muito mais preciso na hora de achar algum problema. No geral esse processo produz entre 3000 e 4000 desenhos individuais.

Antes esses desenhos tinha que ser copiados para as celuloides, mas agora ele vai direto para a pintura. Antes a pintura era realizada pela equipe de finalização, mas hoje a grande maioria é feito pelos próprios animadores, digitalmente. Utilizando o RETAS! Pro, eles conseguem pintar digitalmente 150 desenhos no mesmo espaço de tempo em que eram pintados 50.

Parte 6: Cenários

Para os cenários os processos digitais não mudam o estilo tradicional de arte criado para os cenários de fundo. Alguns artistas pintam diretamente no software, outros preferem pintar à mão e digitalizar e retocar no software depois. Os tons de cores e iluminação são facilmente ajustados e modificados agora. Cerca de 300 cenários são produzidos por episódio.

Pintura Digital

Pintura digital, diretamente na tela

Parte 7: Fotografia, efeitos e edição

No processo digital não há mais o processo de fotografar cada película. O software simplesmente renderiza a imagem final. O software da um controle muito maior na hora de edição do vídeo, principalmente de câmera e posicionamento de objetos em cena. É possível criar espaços 3D para a câmera navegar, a partir de desenhos 2D. Objetos de cena podem receber coordenadas precisas além de variações de velocidade e aceleração muito bem controladas.

Quando esta parte finalizada o material é enviado para o responsável em detalhes e efeitos especiais, como sombra, explosão e Ki. Com a produção digital, muitos desses efeitos já ficam “salvos” e pré programados para serem usados facilmente em diversos episódios. As cenas são exportadas em vários formatos de vídeo e até mesmo de imagem, os comuns PNG e JPG para veiculação de mídia ou sites, por exemplo.

A edição do episódio final é realizada em dois momentos. Inicialmente, o editor trabalha com todo o material em baixa para facilitar o processo, os arquivos ficam mais leves e podem ser transportados e enviados mais facilmente. Então se há alguma edição ela é mais fácil de fazer. Quando esse material foi aprovado pelo diretor, aí sim é feita a edição em alta resolução, seguindo o material em baixa aprovado. Depois o material é enviado para dublagem.

Parte 8: Dublagem, sons e músicas.

A diferença principal nesta parte é que a gravação é feita digitalmente agora. Mas os processos de ensaio e gravação permanecem os mesmos.

Dublagem Dragon ball Z

Masako Nozawa, dubladora do Goku no Japão

Parte 9: Finalização

Esta é a parte de editar todos os componentes da animação e juntar em um arquivo só. Também é inserido algumas outras coisas no vídeo como títulos do episódio, logo da emissora, créditos, etc. O vídeo é então exportado em diferentes formatos para diferentes finalidades.

Edição Dragon Ball Z

Conclusão

O processo digital mantém muitas características no processo tradicional porém com exclusões de diversas etapas. Onde antes precisava de carros ou caminhões para transportar películas hoje uma motocicleta consegue entregar um pen-drive ou um simples e-mail com um link para download. Os softwares de edição consegue automatizar diversas tarefas, além de facilitar ou excluir outras. O fato dos arquivos serem digitais também reduzem custos com armazenamento e segurança. Além de serem mais fáceis de editar caso precise.

Com tudo isso dito, nós vemos animações atuais com qualidade de animação inferior às tradicionais. Porque isso acontece visto a economia gigante que o processo digital trouxe às companhias responsáveis? O texto original da Kaanzenshu não nos conta mas é possível a criação automática de alguns frames pelo software. Isso quer dizer que o software faz uma mistura entre dois frames para criar um intermediário, o que causa distorção no desenho, portanto qualidade inferior de movimentos na animação.

Mas acredito que esse seja apenas um dos motivos. Se você tiver alguma informação ou ideia do porque isso vem acontecendo, nos mande uma mensagem para discutirmos.

Material retirado, traduzido e adaptado de: Kaanzenshu.

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